“Provavelmente vamos parar de publicar no Lancet, New England Journal of Medicine, JAMA e esses outros periódicos porque todos eles são corruptos”, disse Kennedy durante participação no podcast Ultimate Human. Ele também descreveu os periódicos como estando sob o controle de empresas farmacêuticas.
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Esses três periódicos, todos estabelecidos nos anos 1800, publicam pesquisas originais revisadas por pares e desempenham papel central na disseminação de descobertas médicas em todo o mundo.
JAMA, publicado pela Associação Médica Americana, e o Lancet dizem receber mais de 30 milhões de visitas anuais aos seus sites. Já o New England Journal of Medicine diz ser lido impresso e online por mais de um milhão de pessoas por semana.
“Usamos rigorosos processos de revisão por pares e editoriais para garantir a objetividade e confiabilidade da pesquisa que publicamos”, disse a New England Journal of Medicine em comunicado por e-mail. “NEJM continuará focado em publicar avanços científicos para melhorar a saúde dos americanos e das pessoas ao redor do mundo.”
Os outros periódicos não responderam a um pedido de comentário sobre os comentários do secretário de Saúde.
Kennedy também acusou várias agências sob o Departamento de Saúde e Serviços Humanos – incluindo os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) e os Centros de Serviços de Medicare e Medicaid – de serem “fantoches” para a indústria farmacêutica.
Sobre seus planos para o departamento criar seus próprios periódicos, Kennedy disse que eles se tornariam “os periódicos preeminentes, porque se você recebe financiamento [NIH], isso está ungindo você como um cientista bom e legítimo.”
Adam Gaffney, pesquisador de saúde pública e professor assistente na Faculdade de Medicina de Harvard, disse que “proibir pesquisadores financiados pelo NIH de publicar em periódicos médicos líderes e exigir que publiquem apenas em periódicos que carregam o selo de aprovação de RFK Jr. deslegitimaria a pesquisa financiada pelos contribuintes.”
Harvard é uma das universidades que entraram na mira de Trump, que tentou proibir a instituição de receber alunos do exterior. Dias depois, o republicano suspendeu novas entrevistas de visto para estudantes estrangeiros.
Segundo Gaffney, as aprovações de medicamentos são baseadas na ciência sólida e que, embora devam ser tomadas medidas para garantir que interesses comerciais não impactem “a conduta ou relatórios da ciência”, isso é improvável de acontecer, dado os cortes da gestão Trump no financiamento para saúde pública e pesquisa, bem como as próprias visões antivacina de Kennedy.
O episódio do podcast foi lançado logo após Kennedy driblar o CDC e declarar que seu departamento deixaria de recomendar a vacina contra o coronavírus para grávidas saudáveis e crianças.
Na semana passada, a Casa Branca lançou o que chamou de Relatório MAHA, que contestou o consenso médico convencional sobre questões como vacinas.
Especialistas médicos disseram que algumas sugestões do relatório ultrapassaram os limites da ciência, enquanto vários trechos do relatório ofereceram interpretações enganosas de descobertas em artigos científicos.
As observações de Kennedy e o relatório surgem em meio a preocupações crescentes na comunidade científica sobre ações da administração Trump que paralisaram ou interromperam esforços de pesquisa.
Em abril, o procurador dos EUA para o Distrito de Columbia enviou carta incomum ao periódico científico Chest que questionava suas políticas editoriais, despertando preocupações com a liberdade de expressão.
O financiamento do NIH caiu mais de U$3 bilhões entre a posse de Trump em 20 de janeiro e março, em comparação com as concessões emitidas no mesmo período do ano passado, e as principais universidades perderam financiamento governamental para pesquisa.
No Departamento de Saúde, Kennedy liderou uma “limpeza” de cerca de 20 mil trabalhadores federais, afetando praticamente todos os braços do departamento.
Os cortes de pessoal e congelamentos de financiamento levaram cientistas dos EUA a considerar a mudança para o exterior, já que países como França, Alemanha, Espanha e China começaram a recrutar ativamente pesquisadores americanos. / COM INFORMAÇÕES DO THE WASHINGTON POST