Estudo brasileiro apresenta resultados promissores em tratamento inédito para o câncer de mama. Pesquisadores da Fiocruz Minas concluíram mais uma etapa do trabalho que avalia o uso de nanopartículas de óxido de ferro no combate a tumores. Os resultados mostraram que a terapia consegue reduzir o crescimento das células cancerígenas e também evitar que se espalhem para outros órgãos.
As descobertas foram publicadas na revista Cancer Nanotechnology. O estudo foi realizado somente com animais e tem ainda algumas etapas pela frente até chegar ao estágio dos testes clínicos. Mas a expectativa é de que, dentro de 3 a 5 anos, a terapia comece a ser testada em humanos. O câncer de mama é o de maior incidência entre as mulheres e também o que mais mata.
Pesquisador Carlos Eduardo Calzavara, da Fiocruz, desenvolve tratamento contra o câncer de mama com nanopartículas de óxido de ferro Foto: Sílvia Bento/Fiocruz Minas
As nanopartículas são partículas tão pequenas que, para se ter ideia, caberiam até mil delas na cabeça de um alfinete. Por terem esse tamanho, elas são capazes de transpor facilmente a membrana das células, carreando substâncias necessárias para o tratamento de alguma doença ou mesmo capazes de estimular o sistema imunológico.
No trabalho, camundongos com câncer de mama foram separados em dois grupos. Apenas um deles recebeu a terapia. Os cientistas verificaram que, nos camundongos que receberam o tratamento, houve aumento das células de defesa capazes de matar células cancerígenas e redução de até 50% dos tumores.
Também foi observada redução dos neutrófilos, um outro tipo de célula que favorece a progressão do câncer.
Outra importante constatação do estudo foi que, nos animais que receberam as nanopartículas, houve redução nos níveis da molécula MCP-1, associada à formação de metástases no câncer de mama.
Os cientistas analisaram os pulmões e o fígado dos camundongos, órgãos frequentemente acometidos por metástases, e constataram que entre os animais tratados havia bem menos focos tumorais.
A pesquisadora Camila Sales Nascimento, da Fiocruz Minas, que participa da pesquisa do professor Carlos Eduardo Calzavara, sobre o uso de nanopartículas de óxido de ferro contra o câncer de mama Foto: Otávio Martins/Fiocruz Minas
“Em uma análise anterior, havíamos visto que as nanopartículas impossibilitam o crescimento do tumor”, conta o coordenador do estudo, o pesquisador Carlos Eduardo Calzavara, que assina o trabalho junto com a pesquisadora Camila Sales do Nascimento.
“Agora, com esse novo estudo, pudemos compreender como isso acontece e também como as nanopartículas são capazes de impedir as células cancerígenas de se espalhar dando origem a metástases.”
Segundo explicou Calzavara, o câncer tende a “enganar” o sistema de defesa do organismo, permitindo que o tumor cresça sem ser combatido. As nanopartículas, nas palavras do cientista, “despertam” o sistema imune, fazendo com que ele reconheça a ameaça e comece a reagir, destruindo as células anômalas.
“Há muitas recidivas, ou seja, situações em que o câncer reaparece; há também casos de resistência ao tratamento e pacientes que não suportam as terapias atualmente disponíveis”, explicou o pesquisador. “Tudo isso faz com que o câncer de mama continue matando muito, não só no Brasil como no mundo todo. Por isso, é tão importante expandir o leque terapêutico.”
De acordo com dados do Ministério da Saúde, a estimativa é de que o Brasil tenha registrado 73.610 novos casos de câncer de mama. No País, a incidência é de 66,4 casos para 100 mil mulheres. A mortalidade é de 12,3 para 100 mil.