Todo mundo sabe. O sexo de um mamífero é determinado pelos genes que ele carrega. Durante a gestação, caso o embrião possua dois cromossomos X (XX) serão formados ovários e aparecerão outras características do sexo feminino. Mas, se houver um cromossomo Y (XY), testículos e outras características do sexo masculino se desenvolverão.
Como isso ocorre dentro do útero da mãe, sempre se acreditou que o caminho escolhido pelo embrião era determinado somente por esse mecanismo genético e nunca influenciado pelo meio ambiente. A novidade é que agora foi descoberto em camundongos que a ausência de ferro na alimentação pode levar embriões XY a desenvolverem ovários.
O sexo de um mamífero é determinado pelos genes que ele carrega. Foto: onlyyouqj /Adobe Stock
O gene presente no cromossomo Y responsável pelo desenvolvimento das características masculinas foi descoberto em 1990. Ele se chama Sry e define o sexo do embrião. Na sua ausência, uma cascata de ativações gênicas leva à formação de fêmeas, mas basta ele estar presente para o embrião tomar o caminho oposto e se desenvolver em um macho. É por isso que ele é considerado o gene chave na determinação do sexo.
Faz alguns anos um grupo de cientistas descobriu que a ativação do gene Sry nas células que formarão os testículos depende da ação de uma enzima chamada KDM3A. Quando esse gene está ausente, o Sry não é ativado e os embriões, mesmo sendo XY, desenvolvem ovários. Foi nessa época que foi descoberto que o KDM3A contém um íon de ferro (Fe+2) na sua estrutura. Sem esse átomo de ferro, a enzima não funciona e o Sry não é ativado.
Esses resultados levaram os cientistas a imaginar que talvez a presença de quantidades adequadas de ferro fosse essencial para a ativação do Sry e o desenvolvimento de embriões do sexo masculino. Mas o que ocorreria se não houvesse ferro no organismo?
Numa primeira série de experimentos, células XY foram cultivadas na ausência de ferro e foi possível demonstrar que, nessas condições, o gene Sry não era ativado. Em seguida, os cientistas cultivaram embriões intactos na presença de um composto que remove o ferro do meio de cultura. Nesse caso, embriões XY desenvolviam ovários, reforçando a ideia de que o ferro era necessário.
Mas será que ele era necessário em animais intactos? Quando esse composto que elimina o ferro é administrado diretamente a fêmeas grávidas, uma fração (5 em 72) dos embriões XY desenvolveu ovários. Em uma terceira série de experimentos, foram criados camundongos com uma deficiência na absorção de ferro e novamente uma fração (7 de 39) dos embriões XY acabou com ovários em vez de testículos.
E, finalmente, foi feito o experimento mais importante: reduzir o ferro da dieta dos camundongos. Como o ferro é essencial para nossa sobrevivência, ele não pode ser totalmente eliminado da ração dos animais. Com níveis mínimos de ferro e somente uma cópia do gene KDM3A presente, novamente uma pequena fração (2 em 43) dos embriões XY se desenvolveu com fêmeas.
Em conjunto, esses experimentos demonstram que o ferro é essencial para que o mecanismo que determina o sexo em mamíferos funcione corretamente. Essa é a primeira demonstração de que um fator ambiental pode afetar a determinação do sexo em mamíferos. Mas é bom lembrar que essa descoberta não tem implicações no nosso cotidiano. Os níveis de ferro necessários para que embriões XY desenvolvam ovários são tão baixos que dificilmente ocorrem em condições normais.
Mais informações: Maternal iron deficiency causes male-to-female sex reversal in mouse embryos. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-025-09063-2 2025