Medida tem efeito perverso e destrói sonhos, diz aluno brasileiro de Harvard
Eduardo Vasconcelos, estudante de Economia e Governo, espera que a proibição seja barrada pela Justiça e os direitos dos estudantes permaneçam resguardados.
Após a gestão Donald Trump cortar bilhões de dólares em financiamento federal para a pesquisa, milhares de cientistas nos Estados Unidos perderam seus empregos ou bolsas — e governos e universidades ao redor do mundo viram uma oportunidade.
Nos últimos meses, a liberdade acadêmica também está sob ameaça. O último capítulo da ofensiva da Casa Branca contra o setor acadêmico foi a tentativa do republicano de barrar estrangeiros na Universidade Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo, medida que foi bloqueada na Justiça.
O programa “Canadá Lidera”, lançado em abril, espera fomentar a próxima geração de inovadores trazendo pesquisadores biomédicos em início de carreira para o norte da fronteira.
A Universidade Aix-Marseille, na França, iniciou o programa “Lugar Seguro para a Ciência” em março — prometendo “acolher” cientistas baseados nos EUA que “possam se sentir ameaçados ou impedidos em sua pesquisa”.
O “Programa de Atração de Talentos Globais” da Austrália, anunciado em abril, promete salários competitivos e pacotes de realocação.
Para especialistas ouvidos pelo Estadão, as nações desenvolvidas, em especial os da Europa, tendem a ser os principais destinos desses pesquisadores, mas a China tem despontado pelo volume de publicações. O Brasil também tem potencial menor, mas pode ganhar mais relevância em cooperações científicas globais e repatriar talentos hoje no exterior.
“Em resposta ao que está acontecendo nos EUA”, disse Anna-Maria Arabia, chefe da Academia Australiana de Ciências, “vemos uma oportunidade sem precedentes para atrair algumas das mentes mais brilhantes.”
Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos investiram enormes quantidades de dinheiro em pesquisa conduzida em universidades independentes e agências federais. Isso ajudou os EUA a serem a principal potência científica — e levou à invenção do celular, da internet, terapias contra câncer, doenças cardíacas e derrames, observa Holden Thorp, editor-chefe da revista Science.
Mas hoje esse sistema está sendo abalado.
Desde que Trump assumiu em janeiro, apontou o que chama de desperdício e ineficiência nos gastos federais com ciência e fez grandes cortes nos níveis de pessoal e financiamento de bolsas na Academia Nacional de Ciências, Institutos Nacionais de Saúde (NIH), Nasa (a agência espacial americana) e outros órgãos, além de cortar da pesquisa para universidades privadas.
A proposta de orçamento da Casa Branca para o próximo ano pede para cortar o orçamento do NIH em cerca de 40% e a Fundação Nacional de Ciência em 55%.
“A gestão Trump está gastando seus primeiros meses revisando os projetos da administração anterior, identificando desperdícios e realinhando nossos gastos com pesquisa para corresponder às prioridades do povo americano e continuar nossa dominação inovadora”, disse o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai.
Várias universidades anunciaram congelamentos de contratações, demissões pararam de admitir novos alunos de pós-graduação.
Mesmo quem não está nos Estados Unidos é afetado, uma vez que a verba americana de pesquisa apoia projetos em outros lugares do mundo. “Do nosso projeto, 95% do financiamento vêm de agências americanas e não há previsão sobre quando o dinheiro será liberado; a situação é gravíssima”, afirmou ao Estadão, em abril, o pesquisador Ricardo Augusto Dias, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).
Liberdade acadêmica vira atrativo
Universidades estão sempre tentando “roubar” talentos umas das outras, assim como empresas de tecnologia e negócios em outros campos. O que é incomum sobre a fase atual é a promessa sobre algo que antes não era ameaça: a liberdade acadêmica.
Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen disse este mês que a União Europeia pretende “consagrar a liberdade da pesquisa científica em lei”. Ela falou no lançamento do “Escolha a Europa para a Ciência” — que estava em preparação antes dos cortes de Trump, mas buscou capitalizar o momento.
Eric Berton, presidente da Universidade Aix-Marseille, expressou sentimento semelhante após lançar o programa “Lugar Seguro para a Ciência” da instituição.
“Os colegas pesquisadores americanos não estão particularmente interessados em dinheiro”, disse sobre os candidatos. “O que eles querem, acima de tudo, é poder continuar sua pesquisa e que sua liberdade acadêmica seja preservada.”
EUA terão fuga de cérebros?
É cedo demais para dizer quantos cientistas deixarão os EUA. Levará meses para as universidades revisarem as candidaturas e distribuírem financiamento, e mais tempo ainda para os pesquisadores mudarem suas vidas.
Também é difícil medir o impacto de cientistas que deixarão de escolher alguma instituição americana por medo da provável instabilidade nos próximos anos.
A liderança americana no financiamento de pesquisa e desenvolvimento é enorme — e mesmo cortes significativos podem deixar programas cruciais de pé. Os EUA têm sido o principal financiador mundial de P&D — incluindo investimentos governamentais, universitários e privados — por décadas. Em 2023, financiou 29% do P&D mundial, segundo a Associação Americana para o Avanço da Ciência.
Mas algumas instituições no exterior relatam interesse significativo inicial por parte de pesquisadores nos EUA. Quase metade das aplicações para “Lugar Seguro para a Ciência” — 139 de um total de 300 — vieram de cientistas baseados nos EUA, incluindo pesquisadores de Inteligência Artificial e astrofísicos.
Candidatos baseados nos EUA na rodada de recrutamento deste ano para o Instituto de Genética, Biologia Molecular e Celular da França dobraram em relação ao ano passado.
Na Sociedade Max Planck na Alemanha, o Programa de Excelência Lise Meitner — voltado para jovens pesquisadoras — atraiu o triplo de inscrições de cientistas baseados nos EUA este ano em comparação com 2024.
Recrutadores de empresas e organizações sem fins lucrativos veem tendência similar.
Natalie Derry, sócia-gerente da Prática de Ciências Emergentes Globais na recrutadora WittKieffer, baseda no Reino Unido, diz que viu alta de 25% a 35% em candidatos dos EUA fazendo contato inicial sobre posições abertas.
Ainda assim, há obstáculos práticos, segundo ela, como barreiras linguísticas, organizar cuidados com crianças ou idosos, e diferenças significativas em programas nacionais de pensão ou aposentadoria.
Quem vai assumir a liderança?
Para pesquisadores ouvidos pelo Estadão, assim como em outras áreas, a política adotada por Washington para a ciência e para o ensino superior pode abrir caminho mais amplo para Pequim.
Entre 2018 e 2020, os americanos foram responsáveis por 24,9% dos artigos científicos mais citados no planeta – perdendo a liderança para a China, com 27,2%. No mesmo período, a China também superou os americanos em volume de artigos científicos publicados: 407.181 em média por ano, ante 293.434 dos Estados Unidos.
“Os Estados Unidos já estavam perdendo a liderança (na ciência) para a China. Agora estão dando todas as condições para a China crescer ainda mais”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Renato Janine Ribeiro, também ex-ministro da Educação. “É um tiro no pé.” / COM ASSOCIATED PRESS