Pesquisadores anunciaram na quarta-feira, 16, um avanço significativo na produção de carne em laboratório. Eles conseguiram produzir carne de frango do tamanho de um nugget com a ajuda de um aparelho que simula o trabalho do sistema circulatório.
A técnica utiliza fibras ocas para levar oxigênio e nutrientes às células musculares de galinhas – avanço que permite a produção em laboratório de pedaços de frango de até dois centímetros de comprimento e um centímetro de espessura. Essa tecnologia é crucial para que se consiga produzir em laboratório diferentes cortes de frango, boi, porco e peixe. A mesma técnica também tem o potencial de produzir órgãos funcionais.
Pesquisadores conseguem criar carne de frango em laboratório do tamanho de nugget Foto: Shoji Takeuchi/Universidade de Tóquio
“É um passo transformador; uma solução realmente elegante”, afirmou o professor Derek Stewart, do Instituto James Hutton, em entrevista ao jornal britânico The Guardian. “Eles criaram um pedaço de frango do tamanho e na escala que as pessoas estão acostumadas a comer: é o modelo nuggets de frango.”
A produção de carne em laboratório é considerada alternativa importante para minimizar impactos da fome em regiões onde não há carne disponível e, sobretudo, reduzir a demanda por bovinos. Assim, é possível contribuir para a redução das emissões de gás carbônico, responsáveis pelo aquecimento global.
Uma das maiores dificuldades de se produzir carne em laboratório é conseguir fazer com que nutrientes e oxigênio alcancem as células musculares nas áreas mais grossas do tecido. Sem nutrientes e oxigênio, as células morrem. Por conta disso, muitos projetos em andamento tem como foco a produção de pedaços muito pequenos, como carne moída ou frango desfiado.
Para resolver o problema, o professor Shoji Takeuchi, da Universidade de Tóquio, construiu um biorreator que abriga células vivas em gel e as alimenta com oxigênio e nutrientes através de fibras ocas semipermeáveis que atravessam o material como se fossem vasos sanguíneos,
“Um dos maiores desafios de produzir pedaços mais grossos de tecido em laboratório é que as células têm dificuldade de receber oxigênio e nutrientes suficiente para sobreviverem”, afirma Takeuchi. “Nosso sistema ajudou a resolver o problema com perfusão interna, permitindo a produção de pedaços maiores de tecido.
Em artigo publicado na revista Trends in Biotechnology, Takeuchi e seu grupo descreveram como conseguiram obter um pedaço de frango de 11 gramas, produzido com a ajuda de mais de mil fibras ocas. Através das fibras, os cientistas lançaram uma mistura de oxigênio e nutrientes para nutrir as células.
Os cientistas japoneses desenvolveram um biorreator com fibras ocas para a produção de frango em laboratório Foto: Shoji Takeuchi/Universidade de Tóquio
Produzir carne de laboratório em pedaços maiores pode ajudar os pesquisadores a replicar a textura e a aparência da carne, como peito de frango ou coxa, segundo Takeuchi. “Embora a produção de carne moída seja mais simples, ela não reproduz completamente a a estrutura fibrosa da carne e a textura que os consumidores costumam associar aos diferentes cortes”, ele acrescentou.
Por enquanto, as fibras ocas do sistema circulatório artificial precisam ser removidas depois da produção da carne. Mas os cientistas estão tentando reproduzir a tecnologia com fibras de celulose comestíveis que poderiam ser deixadas na carne e também usadas para variar a textura.
Fibras comestíveis podem abrir outras possibilidades também, segundo Stewart. Os cortes de carne poderiam ser fortificados com zinco e selênio, por exemplo, ajudando o sistema imunológico de idosos.
O pesquisador foi além, ao imaginar se o molho masala poderia ser introduzido nas fibras, criando um “nugget tikka masala”. O frango tikka masala é um prato típico indiano, muito consumido no Reino Unido. “Eu experimentaria”, disse o cientista.
Takeuchi afirmou que novas versões do biorreator poderiam usar sangue artificial para carregar mais oxigênio para as células, permitindo a produção de pedaços maiores de carne. Se houver financiamento, afirmou, o produto poderia estar disponível dentro de cinco a dez anos.
“Inicialmente, seria provavelmente mais caro do que o frango natural, sobretudo por conta dos custos de material e de produção”, afirmou. “Entretanto, estamos desenvolvendo sistemas de produção de alimento em maiores escalas que devem baixar substancialmente os custos com o tempo.”