O termo “vigilantes de títulos” —uma expressão que se refere a investidores de títulos de dívida que tentam influenciar a política econômica de um país ao ajustar suas decisões de compra e venda desses ativos— tem ganhado força nas discussões de mercado. Isso porque, desde o início de 2025, observamos um aumento acentuado nas taxas de juros de diversos países.
Nos Estados Unidos, a taxa de juros dos títulos de 10 anos disparou mais de um ponto percentual em quatro meses, aproximando-se de 5% há poucos dias, nível não observado desde antes da crise financeira global, há quase duas décadas.
A expectativa de grande parte do mercado era que a flexibilização da política monetária, iniciada pelo Fed em setembro, acompanharia o ritmo da desaceleração da atividade econômica, cenário que não se concretizou, já que a economia se manteve robusta, gerando dúvidas sobre o grau e a velocidade de queda da inflação.
Nesse contexto, uma política monetária mais contracionista por mais tempo poderia contribuir para o aumento das taxas de juros de curto prazo, que são mais sensíveis ao ciclo econômico, mas não explica totalmente o fenômeno para as taxas mais longas.
Hoje, a diferença entre o rendimento dos títulos de 2 e 10 anos está perto do nível mais alto em mais de uma década. Tal movimento pode ser atribuído, em grande parte, ao crescimento do “prêmio de prazo” (em inglês “term premium”). O prêmio de prazo representa o rendimento adicional exigido pelos investidores para assumir o risco de apostar em títulos de longo prazo. É influenciado por diversos fatores de risco, como estabilidade política, solvência da dívida, eventos geopolíticos, riscos para a inflação futura, entre outros.
A preferência de Trump por aumento de tarifas, redução de impostos, restrições à imigração e desregulamentação trazem riscos para a economia em diversos aspectos que justificam o aumento do prêmio de prazo. As preocupações em relação à trajetória da dívida americana, ainda que bem menores do que no resto do mundo, poderão crescer ainda mais dependendo das escolhas a serem feitas por um governo com força no Congresso.
Embora o prêmio de prazo não seja diretamente observável, ele pode ser estimado com base em variáveis financeiras, como ilustrado no gráfico abaixo.
Tensões semelhantes têm surgido em outros países, como Reino Unido, França e Japão. Em determinado momento, o rendimento dos títulos de 30 anos do Reino Unido atingiu o maior nível desde 1998.
No Brasil, a curva de juros sofreu uma abertura bastante acentuada, especialmente após o anúncio do plano fiscal em novembro. Diante da decisão do governo em adotar medidas para cumprir as metas fiscais de curto prazo, sem enfrentar o problema estrutural de crescimento do gasto e da trajetória insustentável da dívida, o prêmio de prazo brasileiro atingiu 3.9 p.p. —maior nível desde março de 2023, quando o novo arcabouço fiscal foi aprovado. Durante o governo Dilma, este valor chegou à marca de 6.4 pp.
Muitos analistas comparam a Selic daquele período, que atingiu seu valor máximo de 14,25%, com o valor que o mercado precifica hoje, em torno de 16%, interpretando a precificação atual como exagerada. Essa análise, no entanto, não leva em conta um ponto crucial: em 2016, o prêmio de prazo nos EUA era negativo. Ou seja, se não trouxermos um choque de credibilidade, nosso prêmio pode subir mais dada as condições internacionais atuais.
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Estamos, portanto, diante de um momento decisivo em que a resiliência econômica global será testada por níveis de endividamento historicamente elevados. O papel dos ‘vigilantes de títulos’ vai além de meras reações ao mercado; ele reflete o olhar atento dos investidores sobre as escolhas políticas e econômicas que moldarão o nosso futuro.
Resta saber se os governos optarão por disciplina fiscal ou pela inflação como ferramenta para lidar com o crescente peso da dívida. Uma coisa é certa para o Brasil: o mercado sempre foi e será vigilante.